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Terapia de casal: 10 sinais de que chegou a hora de buscar ajuda

Uma das perguntas que mais aparecem quando falamos sobre terapia de casal é:
“Como saber se chegou a hora de procurar ajuda?”

Muitas pessoas acreditam que a terapia de casal deve ser considerada apenas quando o relacionamento está à beira do fim, depois de uma traição, diante de uma crise grave ou quando alguém já começou a pensar em separação. Mas essa é uma visão bastante limitada do processo terapêutico.

Na prática, talvez a pergunta mais importante não seja “nosso relacionamento está ruim o suficiente para precisar de terapia?”, mas sim:

“Estamos conseguindo resolver sozinhos aquilo que está acontecendo entre nós?”
Essa diferença parece pequena, mas muda completamente a maneira de compreender a terapia de casal.

O problema nem sempre é o conflito
Relacionamentos saudáveis também têm conflitos. Duas pessoas possuem histórias diferentes, expectativas diferentes, formas distintas de demonstrar afeto, necessidades emocionais e sexuais próprias e maneiras particulares de lidar com frustração, proximidade e autonomia.
Portanto, discordar não significa necessariamente que existe algo errado com a relação.
O que merece atenção é o padrão que o casal começa a construir em torno dessas diferenças.
Alguns casais conseguem conversar, discordar, reparar os danos emocionais e seguir adiante. Outros começam a repetir praticamente a mesma discussão, apenas mudando o assunto.
Hoje a briga é sobre dinheiro. Amanhã, sobre sexo. Depois, sobre os filhos, a família, o celular, a falta de atenção ou a divisão das tarefas.

Os assuntos parecem diferentes, mas emocionalmente a conversa pode ser sempre a mesma:
“Você não se importa comigo.”
“Tudo o que eu faço nunca é suficiente.”
“Você não me escuta.”
“Não adianta conversar com você.”
“Eu me sinto sozinho dentro desta relação.”

É justamente quando os conflitos começam a se transformar em padrões repetitivos de interação que a terapia de casal pode se tornar especialmente importante.
Quando vocês deixam de discutir o problema e passam a lutar um contra o outro

Um dos padrões bastante estudados na literatura sobre relacionamentos é chamado de demand-withdraw, ou padrão de demanda e afastamento.
Ele acontece quando uma pessoa tenta insistentemente conversar, cobrar uma resposta ou resolver determinado problema enquanto a outra evita, se fecha, muda de assunto ou se distancia.
Quanto mais uma cobra, mais a outra se afasta.
Quanto mais a outra se afasta, mais a primeira cobra.
E, depois de algum tempo, ninguém mais consegue identificar quem começou.

Estudos mostram associação entre esse tipo de interação e maior sofrimento e insatisfação conjugal. Uma pesquisa transcultural envolvendo participantes do Brasil, Itália, Taiwan e Estados Unidos encontrou associação positiva entre comunicação construtiva e satisfação no relacionamento e associação negativa entre padrões de demanda/afastamento e satisfação.
Pesquisas mais recentes mostram que esse padrão também merece atenção quando aparece na vida sexual do casal. Em um estudo com 151 casais, maior presença de demanda e afastamento durante conflitos sexuais esteve associada a menor satisfação sexual e relacional e maior sofrimento sexual. Além disso, foi relacionada a menor satisfação com o relacionamento 12 meses depois.
Isso nos ajuda a compreender algo importante: muitas vezes o problema não está apenas naquilo sobre o que o casal discute, mas na maneira como os dois aprenderam a se proteger emocionalmente durante o conflito.

A teoria do apego ajuda a compreender por que algumas brigas parecem nunca terminar
A Teoria do Apego, desenvolvida inicialmente por John Bowlby e posteriormente aplicada às relações amorosas adultas, oferece uma perspectiva muito interessante para compreender esses ciclos.
Em uma relação afetiva significativa, nosso parceiro não é apenas alguém com quem dividimos uma casa, tarefas ou projetos. Essa pessoa também pode ocupar um lugar importante de segurança emocional.
Por isso, situações aparentemente pequenas podem ativar medos muito maiores.
Uma demora para responder pode ser experimentada como rejeição.
A falta de iniciativa sexual pode ser interpretada como “você não me deseja mais”.
Uma crítica pode ser sentida como “eu nunca sou suficiente para você”.
O silêncio durante uma discussão pode ser percebido como abandono.
É nesse ponto que muitos casais começam a discutir não apenas sobre aquilo que aconteceu, mas sobre o significado emocional que atribuíram ao que aconteceu.

A Terapia Focada nas Emoções para Casais, desenvolvida a partir da teoria do apego, trabalha justamente com esses ciclos de interação e com as necessidades emocionais que existem por trás deles. Meta-análises e revisões de ensaios clínicos randomizados oferecem evidências de eficácia dessa abordagem para casais em sofrimento relacional.

Então, quais sinais indicam que pode ser hora de procurar terapia?
Não existe uma única regra.
Mas alguns sinais merecem atenção:
• vocês discutem repetidamente pelos mesmos motivos e nunca chegam a uma resolução;
• pequenas conversas rapidamente se transformam em grandes conflitos;
• um tenta conversar enquanto o outro constantemente se fecha ou evita;
• existe dificuldade de falar sobre sexo, desejo, frequência sexual, rejeição ou diferenças de interesse;
• carinho, intimidade e admiração diminuíram significativamente;
• vocês funcionam muito bem como administradores da casa, dos filhos e das responsabilidades, mas deixaram de funcionar como casal;
• existe ressentimento acumulado por acontecimentos que nunca foram verdadeiramente elaborados;
• houve uma quebra de confiança, como uma traição ou outro tipo de segredo importante;
• decisões sobre dinheiro, filhos, família, trabalho ou projetos de vida se transformaram em fontes permanentes de conflito;
• um ou ambos começaram a se sentir emocionalmente sozinhos dentro da relação;
• as conversas passaram a ser marcadas predominantemente por críticas, acusações, defensividade, hostilidade ou silêncio;
• a ideia de separação começou a aparecer com frequência, mesmo que nenhum dos dois tenha certeza de querer terminar.
Mas existe ainda outra possibilidade que considero fundamental: não é necessário esperar que nenhum desses sinais se torne grave.

Terapia de casal também pode ser preventiva
Um casal não precisa estar em crise para procurar terapia.
Momentos de transição podem ser excelentes oportunidades para esse trabalho: casamento, nascimento dos filhos, mudanças profissionais, dificuldades financeiras, mudanças na vida sexual, saída dos filhos de casa ou qualquer situação que exija uma reorganização significativa da relação.
A terapia pode ajudar o casal a compreender expectativas, negociar diferenças e desenvolver recursos antes que pequenos incômodos se transformem em ressentimentos crônicos.
Também vale corrigir uma informação frequentemente repetida quando se fala sobre esse assunto: a afirmação de que os casais esperariam, em média, seis anos antes de procurar terapia não encontra bom suporte científico. Um estudo publicado no Journal of Marital & Family Therapy encontrou intervalo médio de aproximadamente 2,7 anos entre o surgimento de problemas conjugais considerados sérios e a procura pela terapia de casal, sendo que a maioria procurou ajuda dentro dos primeiros dois anos.
Ainda assim, dois anos convivendo com um ciclo destrutivo podem representar muitas discussões, afastamentos e tentativas frustradas de resolução.
Por isso, esperar até que alguém diga “não sinto mais nada” talvez não seja a melhor estratégia.

O objetivo da terapia não é decidir quem está certo
Esse talvez seja um dos maiores equívocos sobre terapia de casal.
O terapeuta não deveria ocupar o lugar de juiz da relação, distribuindo culpa e determinando quem tem razão.
O trabalho é compreender o sistema relacional que o casal construiu.
Em vez de perguntar apenas “quem começou?”, interessa compreender:
O que acontece entre vocês quando um precisa do outro?
O que cada um faz quando se sente rejeitado, criticado, desvalorizado ou ameaçado?
Como o outro reage a isso?
E como essa reação alimenta novamente o comportamento do primeiro?
Quando o casal consegue enxergar esse ciclo, surge uma mudança importante: pouco a pouco, o parceiro deixa de ser percebido como o inimigo e o padrão relacional passa a ser o problema que os dois precisam enfrentar juntos.
Isso não significa retirar a responsabilidade individual. Cada pessoa continua responsável por suas escolhas, comportamentos e limites. Mas permite compreender como duas histórias individuais se encontram e constroem uma dinâmica que, muitas vezes, nenhum dos dois planejou conscientemente.

E quando existe traição?
A descoberta de uma infidelidade costuma provocar uma ruptura profunda na sensação de segurança da relação. Surgem perguntas, raiva, medo, necessidade de compreender detalhes, perda de confiança e, frequentemente, uma enorme ambivalência:
“Eu quero ir embora, mas ainda amo essa pessoa.”
Nessas situações, a terapia não precisa começar com a obrigação de salvar o casamento.
O primeiro objetivo pode ser criar condições para compreender o que aconteceu, elaborar o impacto da ruptura e permitir que decisões importantes sejam tomadas com maior clareza.
Alguns casais irão reconstruir a relação.
Outros perceberão que a separação é o caminho mais saudável.

A terapia de casal não existe para manter duas pessoas juntas a qualquer custo.
E quando somente um quer fazer terapia?
Isso também acontece com frequência.
Um parceiro percebe o problema e o outro acredita que “não é para tanto”, considera terapia desnecessária ou entende o convite como uma acusação.
Nesse momento, a forma como o assunto é apresentado faz diferença.
Há uma distância enorme entre dizer:
“Você precisa de terapia porque o problema é você.”
e dizer:
“Eu me importo com a nossa relação e sinto que não estamos conseguindo resolver algumas coisas sozinhos. Gostaria que tivéssemos ajuda para compreender o que está acontecendo entre nós.”

O segundo convite não procura um culpado. Ele reconhece que existe uma relação que precisa de cuidado.
Afinal, qual é o melhor momento?
Provavelmente antes do momento em que você imagina.
Não é necessário esperar uma traição.
Não é necessário esperar que a vida sexual desapareça.
Não é necessário esperar que as conversas se transformem em silêncio.
E certamente não é necessário esperar que alguém faça as malas para reconhecer que alguma coisa precisa mudar.
O melhor momento para buscar terapia de casal pode ser justamente aquele em que vocês percebem que ainda existe vínculo e desejo de construir algo juntos, mas as ferramentas que possuem já não estão sendo suficientes para resolver aquilo que se repete entre vocês.

Relacionamentos não se sustentam apenas porque duas pessoas se amam.
Eles também exigem habilidades.
Precisamos aprender a conversar, negociar diferenças, estabelecer limites, reparar feridas, lidar com frustrações, comunicar necessidades, construir intimidade e continuar reconhecendo quem somos individualmente dentro de um projeto compartilhado.
Curiosamente, estudamos para desenvolver quase todas as habilidades importantes da nossa vida. Estudamos para trabalhar, administrar empresas, cuidar do dinheiro, dirigir e exercer uma profissão.
Mas muitas pessoas entram em um relacionamento esperando simplesmente saber como fazê-lo funcionar.
E nem sempre sabemos.
Procurar terapia de casal não significa admitir que o relacionamento fracassou. Em muitos casos, significa perceber que aquela relação é importante demais para continuar repetindo os mesmos padrões sem tentar compreendê-los.

 

Referências bibliográficas

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Relacionamentos também se aprendem.

Se você percebe que está repetindo os mesmos conflitos, se afastando de quem ama ou simplesmente sente que sua relação poderia ser mais saudável, não precisa esperar chegar ao limite para buscar ajuda.

Cuidar da relação também é uma escolha.

Renata Lutz
Relacionamentos • Sexualidade • Terapia de Casal

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